domingo, 29 de agosto de 2010

Lua Adversa

E me disse Cecília, num poema, tudo que eu precisa entender. 
E me disse um poema, como Cecília tudo parecia saber... 

Tenho fases, como a lua 
Fases de andar escondida, 
fases de vir para a rua... 
Perdição da minha vida! 
Perdição da vida minha! 
Tenho fases de ser tua, 
tenho outras de ser sozinha. 

Fases que vão e vêm, 
no secreto calendário 
que um astrólogo arbitrário 
inventou para meu uso. 

E roda a melancolia 
seu interminável fuso! 
Não me encontro com ninguém 
(tenho fases como a lua...) 
No dia de alguém ser meu 
não é dia de eu ser sua... 
E, quando chega esse dia, 
o outro desapareceu...

Cecília Meireles
Tudo na vida é circular... 

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Lamento

Torne-se o tempo um zumbido,
Um som oco e estridente de dentes.
Um soar frio e insano,
Pro entre corpos dormentes.
Vendo o ultimo sopro que te atinge,
Remexo-me brutalmente,
Luto, ergo o corpo, sigo...
Tento novamente resistir.
Tu nem pensas estar vivo,
Ou nem sabes o que és.
E uma agonia louca de querer-te,
Invade-me a alma de relance,
Dilacerando por dentro o meu ser.
Crucifica a fé que alimentavas,
Enterrando em mim este viver...

No mundo de Wosien

 "Toda composição perfeita consiste de compasso, ritmo e melodia.Em toda composição musical estes três elementos contrapõem-se em interação e tensão vivas e permanentes. O compasso representa a visão espiritual do todo, a clareza e a ordem. O ritmo responde pela vitalidade, pela tensão, pelo pulsar do fluxo sangüíneo. A melodia representa o lado verdadeiramente humano, seu querer da alma e seus sentimentos, em todas as suas nuances". (WOSIEN,2000; p. 14)

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Circular...



É circular, a imensidão é circular... E circular também é o tempo. Senhor de brincadeiras eternas. Faz-nos dar voltas e quando menos esperamos, estamos de volta ao inicio. No circulo é assim, tudo sempre retorna. A vida se repete, de quando em quando, e nos presenteia com inesperados reencontros.
Foi assim com a dança, um reencontro com o passado. Um passado tão longínquo e esquecido, que nem o tempo pôde esconder.  Um reencontro com lugares e pessoas, com o divino e comigo mesma, um reencontro de uma velha alma com outra.
Uma velha alma, com olhos antigos, repletos de saber, imersos do conhecimento colhido através de tantas vidas partilhadas. Uma velha alma que eu não esperava mais reencontrar. Partilhamos tantas vidas juntos, idas e vindas no tempo, numa ciranda eterna...
Dividimos caminhos, aprendemos com cada reencontro, esquecemos em cada desencarne e tornamos a lembrar. Como se fosse uma brincadeira de roda, onde passado e presente se misturam, onde o que fomos e o que somos não têm importância, pois o tempo, Chronos, não nos deixar esquecer que tudo na vida é circular...

Volúpia

Volúpia

Tenho-te, do meu sangue alongada nos veios,
à tua sensação me alheio a todo o ambiente;
os meus versos estão completamente cheios
do teu veneno forte, invencível e fluente.

Por te trazer em mim, adquiri-os, tomei-os,
o teu modo sutil, o teu gesto indolente.
Por te trazer em mim moldei-me aos teus coleios,
minha íntima, nervosa e rúbida serpente.

Teu veneno letal torna-me os olhos baços,
e a alma pura que trago e que te repudia,
inutilmente anseia esquivar-se aos teus laços.

Teu veneno letal torna-me o corpo langue,
numa circulação longa, lenta, macia,
a subir e a descer, no curso do meu sangue.


Gilka Machado